A fotografia de Flávia Junqueira
por Rubens Fernandes Junior

Quem sou eu? Desde os tempos mais remotos, filósofos, artistas, escritores, físicos e cientistas sociais desenvolveram uma atenção especial para encontrar a resposta para esta questão fundamental da existência humana. Na contemporaneidade, apesar das diferentes ferramentas criadas pelas mídias sociais – Facebook, MySpace, entre outras – a discussão se ampliou e continua presente em diferentes manifestações nas artes visuais. A experiência ensina que a resposta é complexa, que varia de pessoa para pessoa, mas também depende da fase da vida e da idade.
Flavia Junqueira através da fotografia encontra na autorrepresentação o universo adequado à suas estratégias de criação. É uma artista que desenvolve seu trabalho buscando respostas para sua presença no mundo contemporâneo. Fotografa-se inserida no mundo da mercadoria, no mundo do excesso. Diante da banalização dos objetos e das coisas que nos cercam, estar profundamente envolvida neles foi sua forma de questionar visualmente sua presença neste mundo das aparências. Ter ou ser? A grande questão perpassa pela sua série de autorretratos que desafia nossa percepção e provoca nossa imaginação diante da profusão de repetições de toda ordem.
O autorretrato possui um estatuto mimético particular. No caso específico de Flavia Junqueira, que organiza seu universo de modo desconcertante, é perceptível uma narrativa implícita que sugere interpretações. Mas, não podemos deixar de destacar que esta suposta organização é fragilizada pela presença da artista na imagem, quase sempre na mesma pose – rosto levemente inclinado para baixo e voltado para o lado esquerdo da imagem, olhos semicerrados evitando reconhecer o entorno, em contraste com seu cabelo desalinhado para o lado direito.
Uma fotografia que desencadeia um misto de familiaridade e alienação diante de uma incrível diversidade de objetos que dão pistas para descobrirmos alguma individualidade. O sujeito na sociedade contemporânea, tal qual a artista, tenta encontrar sua própria identidade e para isso, reinventa-se a todo instante e para isso encontra-se em permanente processo de transformação. Mas Flavia não busca apenas identidade em seu trabalho, mas autenticidade e representatividade, que afloram a cada nova imagem que idealiza criativamente.
As cores fortes e contrastantes envolvem a percepção do espectador e, ao mesmo tempo trai, pois ficamos a mercê de uma imagem que exige a busca de algo que se destaque diante da mesmice dos produtos industrializados, sejam brinquedos, tecidos, plásticos, utensílios de cozinha, produtos de limpeza e banho. No seu universo construído e falso, a presença de Flavia Junqueira na imagem é um componente mágico que provoca uma espécie de vertigem do olhar. O resultado é que estamos diante de um ato performativo de tempo estendido que tem muita sintonia com a produção contemporânea.