Gorlovka
por Ananda Carvalho

Em seus primeiros trabalhos, Flávia Junqueira cria cenários preenchidos pelo excesso de objetos. Apresenta espaços interiores da casa por meio de memórias ritualizadas por lentes de aumento. As séries Na Companhia dos Objetos (2008) e A Casa em Festa (2009/2010) busca questionar a ironia da candura infantil através de atos performáticos da própria artista.

Em 2011, ano de produção das séries apresentadas nesta exposição, Flávia Junqueira desloca-se para espaços externos ao ambiente afetivo da casa; percorre um caminho por prédios antigos e/ou decadentes. Passeia por São Paulo para compor a série Sonhar com uma Casa na Casa. Com uma bagagem contendo elementos coloridos, a artista segue para Paris, onde desenvolve AnteSala e Balões. Por fim, chega à Ucrânia. Gorlovka, 1951 são
fotografias realizadas em um decadente Palácio da Cultura da era soviética abandonado na cidade de Donestsk.

Ao visitar estes locais sombrios, a artista sobrepõe elementos inventados. Esses lugares
aparentemente solitários e vazios, são revistos através de cores vibrantes. Ao mesmo tempo
em que os objetos se instauram como detalhes, chamam a atenção pelo contraste em relação
ao espaço. A princípio, não se espera encontrá-los nesses ambientes. É uma tentativa de
ressaltar que as lembranças estão lá, sejam elas oriundas de vivências ou do imaginário.
Entre um tempo que passa rápido (a infância) e outro que não passa (associado à imponência
dos edifícios), a memória é ficcionalizada.
Sabe-se que a fotografia concentra ao longo da história a discussão dicotômica entre espelho
do real e transformação da realidade. Flávia Junqueira dissolve essas fronteiras – real e
ficção estão juntos na mesma imagem – e sobrepõe os diversos significados com que estes
conceitos já foram definidos.