Na Companhia dos Objetos
por Paula Braga

Imagine alguém que ao longo da vida nunca jogou fora nenhum objeto e ainda armazenou objetos das vidas de parentes e amigos. De brinquedos a livros, passando por relógios de parede, quadros, móveis e roupas, tudo se acumula com o passar dos anos em uma casa-museu. Plenitude material e escassez de afeto envolvem a habitante dessa casa que aparece nas fotografias da série “Na Companhia de Objetos” de Flávia Junqueira, soterrada por seus pertences, tão inanimada quanto a miríade de itens que a cercam. Ainda que construam uma história e que tenham significado afetivo para seu possuidor, o excesso de passado literalmente imobiliza a mulher retratada por Flávia Junqueira.

Cada ambiente exposto nas fotografias é cuidadosamente construído, explorando as linhas verticais do alinhamento de bibelôs de parede e de pernas de bonecas, valendo-se das listras dos tecidos, das lombadas coloridas dos livros, das formas e tamanhos dos cestos, panos, bonecos, pratos (e todos os outros substantivos que podem ser encontrados na descrição de preenchimento material de uma casa). Cada pequena área dessas grandes fotografias repetem o mesmo cuidado que foi usado na composição do todo. A fotografia, ampliada em geral para 1,20 x 1,50m, é feita de conglomerados de pequenas áreas, cada uma construída com unidades menores – estampas, logos, tampinhas coloridas dos pequenos potes de plástico. Assemelha-se a uma pintura na qual a mancha de cor se sub-divide em pinceladas.

Depois da construção estudada desse caos de objetos, a artista instala-se no meio da cacofonia de cores e estampas antes de disparar a câmera. Em algumas fotografias seu corpo está praticamente enterrado numa montanha de coisas que parecem extremamente inúteis. A expressão do rosto é sempre a mesma, neutra como um vaso de porcelana. O processo de construção dessas imagens está na intersecção entre fotografia, cenografia e performance.

Inovando o gênero do auto-retrato, Flávia Junqueira reduz-se a mais um objeto doméstico: a criança bonita que faltava circulando pela casa com graça e laços de fita, a adolescente que acrescenta um toque de modernidade ao ambiente, a mulher que complementa o inventário do lar. E todas se acumulam e estão sobrepostas nos objetos, da boneca ao avental, que foram ficando pela casa em quantidade que parece continuar a crescer.

Recentemente Flávia Junqueira começou a trabalhar em uma nova série, “A Casa em Festa”, na qual a mesma personagem feminina continua na presença dos objetos, que dessa vez remetem a festas e não a aprisionam: transforma o que a soterrava em adubo para uma nova fase.