Não se nasce criança, torna-se criança.
por  Icaro Ferraz Vidal Junior


Apresentar a produção recente de Flavia Junqueira reunida emIgrejas barrocas e cavalinhos de pau exige que abandonemos temporariamente o plano da imagem para nos debruçarmos sobre o imaginário que as engendram. A beleza arrebatadora e onírica de cada uma das fotografias encenadas de Junqueira constitui um aspecto fundamental de sua poética, mas está longe de esgotar o potencial dessas imagens.

Com seriedade e rigor análogos ao que observamos nas crianças que brincam de fazer e desfazer mundos imaginários, a artista aposta em um regime de criação e visualidade que coloca em xeque noções que seguem pautando o modo como nós, os adultos, vivemos, indiferentes aos evidentes sinais de falência do projeto moderno.

O título da mostra foi emprestado a um ensaio de Roger Bastide, publicado na década de 1940. Nele, o antropólogo descreve parte de sua pesquisa sobre o barroco brasileiro, especificamente uma viagem pelo Nordeste durante a qual dedicou-se a observar os detalhes da decoração barroca. O autor relata que, na medida em que se aprofundava no estudo desses ornamentos, era acometido pela sensação de reconhecimento de suas formas. A estranheza desta sensação, derivada da sobriedade do barroco europeu, é explicada pela rememoração da infância de Bastide, notadamente, de suas visitas a feiras de variedades e parques de diversão na França, onde uma experiência de encantamento, repleta de volutas e toda sorte de ornamentos, tinha lugar no carrossel.

A poética de Flávia Junqueira alimenta-se do mesmo encantamento que, na primeira metade do século passado, arrebatou o cientista social francês. Nesta exposição, a artista reúne um conjunto de obras que desdobram e aprofundam suas pesquisas em torno das relações entre encantamento, infância e ornamento. Balões, bolhas de sabão e cavalos de pau povoam arquiteturas ostensivamente ornamentadas em imagens que constroem uma noção ampliada de infância, como recusa da racionalidade instrumental moderna e da controversa ideia de progresso.

Há um aspecto comum aos vários elementos recorrentes nas imagens e instalações de Flávia Junqueira. Os balões de gás, as bolhas de sabão e o carrossel remetem, evidentemente, ao universo infantil. Mas ao observarmos detidamente em que consistem tais elementos e o maravilhamento que produzem nas crianças, acessamos um modo de habitar o tempo que em nada se assemelha ao horizonte teleológico inerente à razão moderna. Balões de gás e bolhas de sabão caracterizam-se por uma existência efêmera e pela relativa insubstancialidade. Não há nada neles que nos permita reduzir o maravilhamento que provocam nas crianças a uma finalidade que transcenda o instante fugidio no qual bolhas e balões existem. É nesta suspensão temporária de passado e futuro que a criança experimenta um modo de existência desprovido de ansiedade e de melancolia. E são instantes raros como estes que Junqueira eterniza em suas fotografias encenadas.



Os carrosséis – de onde saem os cavalos que aparecem no centro das fotografias Faculdade de Direito do Largo de São Francisco #1, 1827 e União Fraterna #1, 1934, São Paulo e da serigrafia Eclipse Equestre – e os brinquedos do parque de diversões que vemos em Amparo-Parque de Diversão 2020 caracterizam-se por um movimento circular, em torno de um eixo, o que implica um deslocamento dos corpos que não conduz a lugar algum. Também aqui, o êxtase infantil com um movimento destituído de qualquer finalidade exterior a ele próprio testemunha um modo de existência radicalmente alheio a noções lineares como evolução, amadurecimento ou progresso.



Se o texto de Bastide nos ajuda a vislumbrar a coerência do projeto de Junqueira de associação de signos da infância – presentes em sua obra desde seus primeiros projetos – a espaços arquitetônicos de diferentes períodos históricos marcados por um excesso ornamental; o ensaio Ornamento e crime, publicado em 1908 pelo arquiteto austríaco Adolf Loos nos permite pleitear uma posição singular para a obra de Junqueira enquanto crítica da razão moderna. Em seu texto, Loos critica o que considera um excesso ornamental na arquitetura europeia do final do século XIX baseado na crença de que no processo evolutivo da cultura, deveria haver um progressivo abandono do ornamento nos objetos e espaços utilitários.



Faz sentido, portanto, dizer que o procedimento levado a cabo pela artista nas fotografias encenadas em espaços arquitetônicos ricamente ornamentados como vemos, por exemplo, em Theatro de Santa Isabel, 1841 #2, Recife; Real Gabinete Português de Leitura #2, 1837 eCinema São Luiz #1, 1952, Recife consiste em sobrepor signos reconhecidamente infantis a uma forma de concepção do espaço que foi execrada pelo projeto arquitetônico moderno, por desafiar o utilitarismo que o fundamenta. Neste sentido, o estatuto da infância na obra de Flávia Junqueira não se limita a um enquadramento temático geracional. Sua poética investe sobre a infância enquanto um modo de existir que tensiona e desafia os fundamentos da modernidade.



Além das fotografias encenadas, em Igrejas barrocas e cavalinhos de pau, Junqueira apresenta sua instalação Revoada, composta por esculturas de balão realizadas em vidro soprado que pendem do teto da galeria, espacializando a atmosfera que vemos nas imagens fotográficas. A analogia entre o sopro que preenche os balões e o que dá forma à escultura de vidro constitui mais uma camada de lirismo na poética de Junqueira. Além das obras expostas, pela primeira vez,  a artista concebeu uma cenografia para acolher suas obras, introduzindo elementos decorativos e ornamentais no espaço da galeria de modo a expandir esse imaginário para além de suas imagens.



Por fim, tendo em vista o lugar pleiteado para a produção de Flávia Junqueira na sua relação de crítica com a modernidade, gostaria de concluir evocando uma passagem de Friedrich Nietzsche, outro arguto crítico da razão moderna que, através de seu Zaratustra defendeu um torna-se criança como a terceira – e última – metamorfose do espírito. “A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”, assim falava Zaratustra.