Quando os monstros envelhecem
por Mario Ramiro

Um dos pilares da psicanálise é a descoberta feita por Freud de que podemos encontrar no inconsciente do adulto todos os estágios do desenvolvimento infantil inicial. No adulto estão, reprimidos e inconscientes, os estágios do desenvolvimento considerados mais primitivos. Essa parte primitiva da personalidade está em contradição direta com a parte civilizada, que é de onde parte a repressão.


Poderíamos entender que, tendo sido insuportável ao menino estar no mundo de frustrações e privação, ele voltou-se para a fantasia como uma maneira de elaborar sua triste realidade. Os monstros, em especial Carol, parecem representantes dos objetos internos de uma criança que se sente muito só e carece de alguém que possa conter sua raiva.

"Com a introdução do princípio de realidade, uma espécie de atividade do pensamento foi separada; foi mantida livre do teste de realidade e permaneceu subordinada apenas ao princípio do prazer. Essa atividade é o fantasiar"12

Podemos dizer que o objetivo da fantasia mais diretamente observável é o de satisfazer os impulsos instintuais, prescindindo da realidade externa

Uma característica comum a diversas estórias infantis é o fato de o herói viajar para terras
distantes para viver suas experiências fantásticas. Esse lugar onde vivem os monstros nos é
familiar, mas está cuidadosamente separado da vida real (do menino).

-o-

“maravilha” etimologicamente está relacionada com as artes visuais (mirabilia) e, portanto, serve para colocar em evidência os elementos incorpóreos (tornado visíveis).

…. elaboraram uma teoria alegórica, como os retóricos clássicos, Segundo os quais existe um mundo duplicado: um visiível e seu correspondente invisível.

O que as coisas tem de específico, de normal e belo é diretamente divino; o que elas tem de desvio e de monstruoso é inevitavelmente conseqüência da material (da imperfeição da material).

para o homem medieval, o monstro é uma anomalia normal, algo necessário, inevitável, testemunho da providencia divina.

(…) a imagem está relacionada à noção de imaginário, a qual se define como um ocnjunto de imagens que refletem a mentalidade coletiva de uma sociedade. Jacques Le Goff considerava que as mentalidades se alimentam do imaginário, gerando aproximações com conceitos identitários, onse se representam idéias, símbolos e imagens que tendem a reconstruir realidades sociais, estabelecendo uma aproximação com o munda das iéias e do invisível.
De falto, tal como sustenta Axel Rüth, a sociedade no mundo medieval aceitava estes fenômenos sobrenaturais que eram visto como algo normal e parte da vida cotidiana.

….mirabilia. Vale destacar que a palavra monstro deriva do latin mostrum, isto é, prodígio, maravilha e coisa incrível e que, por sua vez, deriva de monstro, mostrar, indicar e assinalar.

Tal com expressa Jean Chevalier, o monstro reflete uma oposição à ordem, simbolizando as forças irracionais como também as característica do informe, do caótico, o tenebroso e o abysmal. Segundo Claude Kappler, para o homem medieval o monstro é uma anomalia normal, um avatar necessário, inevitável e misterioso, uma forma diferente do mesmo. Lorraine Daston e Katharine Park, vem nos monstros maravilhas e presságios de um desvio da ordem natural. Inclusive, como conclui Lillian von der Walde Moheno, nos monstrous medievais se concentram e se personificam os desenhos e temores inconscientes do ser humano; são seres disformes, filhos da desordem, do estranho, modelos da feiura (centrando em sua essencia a deformação, a alteração do corpo e de sua natureza).

Em certa medida o monstro é tudo aquilo que altera a ordem natural, o que escapa ao mesmo e rompe a harmonia estabelecida pelo divino.

O monstro se define em relação a uma norma violda; é uma deformação ou um desvio da ordem natural ou da ordem divina; é uma desmedida ou uma carencia que violenta a harmonia dos seres.

As imagens denotam elementos explícitos que refletem a diferença. O outro, monstruoso, constitue aquilo que gera surpresa, temor e maravilhamento. É uma desordem que tende a desproporção, anomalia e caos. Em certa medida, o mundo europeu elabora uma idea de monstruosidade para os povos distantes com o fim de compreender sua própria identidade. Uma monstruosidade que não deve ser vista em termos negativos, barbarous e bestiais, mas que também significa um encontro com o extranho, o fascinante e assombroso e que permite conhecer as verdades e maravilhas do mundo. Em suma, mediante o catálogo de monstros (comuns na idade media) é possível penetrar em outros códigos, estruturas mentais e de uma vida que dão conta de uma auteridade que também permite ao viajante definer-se como alguém distinto. Uma monstruosidade que maravilha por sua essencia prodigiosa, descomunal e extraordinária.