Sobre o trabalho de Flávia Junqueira
por Luísa Duarte

Flávia Junqueira realiza um trabalho no qual mescla fotografia, performance e gestos cenográficos. A artista constrói meticulosamente cenas nas quais ela mesma surge sempre com o mesmo semblante – neutro, mas sinalizando para melancolia - sugada em meio a um excesso de bens materiais. Se em uma primeira visada as obras de Junqueira podem parecer sedutoras para o olhar edulcorado do homem contemporâneo, basta uma demora um pouco maior para se perceber que a superfície é enganosa. O que surge atraente e evoca alegria, como na série “A casa em festa”, nas entrelinhas revela uma escassez de afeto e humanidade. Os balões negros segurados pela jovem vestida de rosa sentada sobre um mar de confetes, um pedaço de papel de parede rasgado no teto, os três bolos de aniversário sobre uma só mesa: sempre existem pistas de que em meio ao colorido pulsante e os ícones familiares há algo sorrateiro prestes a fazer tudo desabar. Assim, o trabalho de Junqueira remonta criticamente a nossa situação: uma época na qual aparecer e ter são verbos imperativos, assim como na busca cega pelo bem estar, o sucesso e o prazer o homem arrisca acordar e se ver só, soterrado em meio a uma infinidade de “coisas”, todos elas desprovidas de um só sopro de vida.