Flávia Junqueira

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Flavia Junqueira | Sao Paulo, 1985

Sobre a
artista

Doutoranda no curso de Pós Graduação do Instituo de
Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo (USP) e Bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

Metropolis

Novo cenário do “Metropolis”
TV Cultura, 2021
por Metropolis

Theatro Amazonas

Making of Theatro Amazonas Manaus
2019

Reiners

Reiners Contemporary Art
Flávia Junqueira 2020

Referencias em textos

De uma hora para outra, a festa esfriou. Os balões murcharam, a música cessou e o pipoqueiro foi embora. Ficaram apenas os monstros da infância, mas até eles já não conseguem assustar. Estão caducos. Envelheceram porque nós também envelhecemos. 
Ainda que esses monstros estejam debilitados, eles insistem em permanecer de alguma maneira, o que faz com que Flavia Junqueira aborde lugares, personagens e temores progressos outra vez. Agora, no entanto, a perspectiva é de uma adulta que se acostumou a viver ao lado dessas assombrações e que já não se espanta tanto quanto antes.
Para isso, deixa de lado a composição caótica de trabalhos anteriores, recolhe os objetos que a acompanhavam e agora os exibe isolados, desmembrados da pilha de bexigas e brinquedos.
Em uma loja, fotografa cabeças de fantasias de desenhos animados. Sorridentes, com a alegria estática que lhes é característica, estão silenciosos aguardando por uma festa que pode não acontecer. O quarto está cheio de brinquedos, mas ninguém está brincando ali. 
Da mesma forma, bandeirolas, como aquelas de aniversários infantis, dispostas na entrada da exposição, carregam as frases: “Não consigo respirar direito aqui. Posso sair?”. Aquilo que parece gracioso à primeira vista aponta para algo desalentador em seguida. O registro da escultura que emula a carruagem-abóbora da Cinderela mostra um veículo cujas rodas nunca tocam o chão.
Em outras obras, nem é preciso interferir nas referências do passado. Ao documentar a ótica e o consultório dentário que frequentava quando pequena, Flavia escancara espaços funcionais, dirigidos a adultos, mas que se travestem de buffet infantil para amenizar o medo pueril. Hoje, ao olhar locais que a assustavam antes, sobra o sarcasmo da decoração histérica.
Sarcasmo que reaparece em imagens de um velório, capturadas na internet, no qual os familiares, vestidos como personagens infantis, carregam o caixão de uma criança. Os monstros já não assustam tanto, são até satirizados. Assim como o Mickey que tenta causar algum espanto à artista, mas a encontra paralisada, com a expressão de choque que beira o desdém.  
Há seis anos, Flavia inaugurou esta galeria com uma exposição que fingia ser uma festa. Agora, o cachorro quente, a serpentina e o pirulito dão lugar a uma mostra que deságua em uma lápide com a inscrição: “Pense como uma festa que um dia foi festa, mas que talvez tenha sido interrompida abruptamente e cujo espaço tenha ficado desabitado e esquecido”.

Em seus primeiros trabalhos, Flávia Junqueira cria cenários preenchidos pelo excesso de objetos. Apresenta espaços interiores da casa por meio de memórias ritualizadas por lentes de aumento. As séries Na Companhia dos Objetos (2008) e A Casa em Festa (2009/2010) busca questionar a ironia da candura infantil através de atos performáticos da própria artista.

Em 2011, ano de produção das séries apresentadas nesta exposição, Flávia Junqueira desloca-se para espaços externos ao ambiente afetivo da casa; percorre um caminho por prédios antigos e/ou decadentes. Passeia por São Paulo para compor a série Sonhar com uma Casa na Casa. Com uma bagagem contendo elementos coloridos, a artista segue para Paris, onde desenvolve AnteSala e Balões. Por fim, chega à Ucrânia. Gorlovka, 1951 são
fotografias realizadas em um decadente Palácio da Cultura da era soviética abandonado na cidade de Donestsk.

Ao visitar estes locais sombrios, a artista sobrepõe elementos inventados. Esses lugares
aparentemente solitários e vazios, são revistos através de cores vibrantes. Ao mesmo tempo
em que os objetos se instauram como detalhes, chamam a atenção pelo contraste em relação
ao espaço. A princípio, não se espera encontrá-los nesses ambientes. É uma tentativa de
ressaltar que as lembranças estão lá, sejam elas oriundas de vivências ou do imaginário.
Entre um tempo que passa rápido (a infância) e outro que não passa (associado à imponência
dos edifícios), a memória é ficcionalizada.
Sabe-se que a fotografia concentra ao longo da história a discussão dicotômica entre espelho
do real e transformação da realidade. Flávia Junqueira dissolve essas fronteiras – real e
ficção estão juntos na mesma imagem – e sobrepõe os diversos significados com que estes
conceitos já foram definidos.

Aquecida, guardada, mimetizada nos trabalhos da série na companhia dos objetos de Flávia Junqueira, uma menina/mulher parece ter sido esquecida em profunda simbiose com os objetos de uma casa, muitos deles. Misturar-se tanto com o entorno e em silêncio ate ser confundida é o esconderijo perfeito. A invisibilidade é um recuso que tensiona, o invisível não encara o outro, mas aproveita-se de sua pouca atenção para estar com ele, vigiá-lo.
Um eu que se anula é o esconderijo perfeito, ser ignorado é uma espécie de chave, que pode abrir portas, e através delas, acessar fábulas. Uma criança silenciosa, a despeito das teias restritivas que adultos articulam para constituir a realidade, sentem e intensificam cores para servirem mais adequadamente as afetações que sentem, abusando das propriedades plásticas do pensamento.
Na serie “A Casa em Festa”, fotos de grandes dimensões criam a ilusão de que olhamos, novamente e de um ponto privilegiado, a menina/mulher com seus objetos, brinquedos e um ou outro personagem estranho. Há um convite implícito observável nas imagens, há um “brinca comigo?”. Indícios de uma festa que acabou e tornou os objetos tão inúteis que sua presença cresce, uma bola guarda em si todos os jogos em que foi usada? Parece que os objetos de Flavia são assim dimensionados, exagerando seu não uso, como se o apego ciumento pela boneca fosse indício de quem quer o mundo todo pra si.
Não pensamos na parafernália de equipamentos presentes no momento no qual a foto foi feita e invisíveis nela, somos seduzidos e colocados para assistir ao fim da festa podendo contar apenas com nossa inaptidão para o transitório.
O que vemos nos trabalhos de Flávia Junqueira, da serie “Um outro Mapa para Paris” a partir de fotos e da localização dos carrosséis existentes na cidade ou a série de fotos realizadas na Ucrânia (Gorlovka), durante a realização de uma residência artística para a qual a artista foi selecionada, qualificam estados mentais despertos pelos objetos guardados, e de como somos afetados pela sua existência há um só tempo intensa e precária e, o mais fascinante, estes objetos nos olham tanto quanto olhamos para eles.

Assombrar-se diante do absurdo, abrandar-se na presença da graça. Talvez se possa descrever assim a experiência forte de ver Flávia Junqueira em ato, compondo com excêntrico rigor suas imagens insólitas. Perdido na profusão de cores, com o olhar ofuscado pela explosão de brilhos, o espectador se deixa provocar pelo despropósito. A artista não se abala, não se perde jamais: poeta austera a deslocar palavras em seus versos, move balões sem nunca se cansar. Batalha centímetro a centímetro o lugar exato de cada objeto, o ponto preciso do espaço que ninguém mais descobrirá. A esta altura o espectador pode até rir, tomado pelo disparate, já se perguntando se a arte não estará no movimento incessante, se aquilo que vê não será uma performance. E é nesse preciso instante que uma graça se faz outra graça, e uma arte se faz outra arte.

É quando o obturador se fecha, e quando a foto é revelada, que se desvela o sentido de tantos incansáveis esforços. Estamos subitamente deslocados ao espaço movediço de outras artes, ao museu, ao monumento, aos velhos teatros. Estamos imersos no longínquo cenário de uma cultura nacional, sentindo o peso da história, ouvindo o silêncio do passado. Nenhum espetáculo parece iminente agora, nenhum ator pisará no palco, o público ausente não terá a quem oferecer o seu aplauso. E, no entanto, lá estão os incontornáveis balões, a transtornar o espaço, a nos comover com sua presença enigmática. A leveza a contrariar o peso, a cor a cobrir o silêncio, a delicadeza a se opor à gravidade. Os balões são os artistas a tomar o palco, tenha o teatro a forma que tiver, seja ele a rua, seja ele o céu. Ou será o contrário? Os balões são os espectadores na plateia, a nos devolver a nossa imagem, nós os artistas no palco, paralisados.

Nada dura mais que um instante, logo recobramos o movimento dos nossos corpos, logo estamos de volta ao nosso lugar. Nada está ali para durar: basta um breve afastamento e percebemos estar diante da evanescência, da efemeridade. No tempo de um suspiro, ou pouco mais, os balões estarão murchos, cobrirão o chão já sem nenhum brilho, suas cores agora quase mortas, a festa quase acabada.

Mas antes de irmos embora, uma última presença inesperada. Flávia no centro do palco, a contemplar os balões como quem contempla outro passado, menina a vasculhar no tempo a sua própria infância. Eis a sua fantasia reiterada: o anseio de repetição e retorno que habita toda criança, restauração momentânea do que mais deseja, a leveza, a cor, a rua, o céu. Eis o que a artista nos devolve, ainda que por um átimo, indevassável: a nossa infância, em tudo o que tem de absurdo, em tudo o que tem de graça. 

Contato

Flávia Junqueira é representada em São Paulo pela Galeria Zipper,
Nova Iorque pela Unix Gallery e na Europa pela Galeria Reiners Contemporary Art.