Tudo que Inventei Aconteceu
“Às vezes eu chego a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã!” Lewis Carroll, Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá (Through the Looking-Glass).
Em seu projeto mais recente, Flávia Junqueira escolheu Nova York como cenário para investigar o poder da imaginação. Em “Tudo que Inventei Aconteceu”, a artista trata da nossa capacidade de inventar, criar e encenar. O título admite múltiplas leituras, que refletem o próprio processo criativo dela: de um lado, inventar é fabricar o que não existe; de outro, há uma dimensão mágica: revelar o encantamento que já estava lá. É no paradoxo que cabe a meditação: o que foi inventado passa a fazer parte do real? A ficção pode se tornar mais plausível que a realidade?
Suas imagens são resultado de muitas camadas: planejamento, estudo, espera, centenas de cliques, pós-produção, micro ajustes. O que a artista apresenta é fotografia encenada, tradição que ganha força ao longo dos anos 1970, com artistas como Jeff Wall e Cindy Sherman, e, mais tarde, com alunos da dupla alemã Bernd e Hilla Becher, como Candida Höfer e Andreas Gursky. Para Junqueira, a imagem fotográfica já chega montada, enquadrada e editada antes de alcançar o espectador. Como diz a historiadora Mia Fineman, “o velho adágio de que a ‘câmera nunca mente’ foi sempre a ficção suprema da fotografia”.
Ao longo de um mês, no início de 2026, fruto de uma parceria entre suas duas galerias, a Unix, em Nova York, e a Zipper, em São Paulo, a artista registrou lugares icônicos da cidade. No Bethesda Terrace, no Central Park, balões e bolhas dialogam com os azulejos do teto arqueado, feitos originalmente para o chão, numa lógica de inversão. Na escultura de Alice no País das Maravilhas, de 1959, pensada para ser escalada por crianças, encontramos o olhar infantil que funda sua teatralidade: em inglês, peça de teatro e brincar são a mesma palavra, play.
No metrô vazio e sujo, cavalos de brinquedo sobre a plataforma parecem ter escapado de um parque de diversões e mexem com a nostalgia e os medos que trazemos dentro de nós. Já o carrossel do Bryant Park e o Jane’s Carousel, lugares favoritos da artista em Nova York, aparecem sem intervenção. No Bryant Park, na primeira imagem, vemos o carrossel de frente, aberto, de dia; na segunda, vemos os fundos, o carrossel já fechado, à noite. Diferente da maior parte de suas criações, o registro sem encenação revela que a realidade também pode ser fabulosa. A artista se interessa pela falta de funcionalidade do brinquedo, “você gira, gira e não chega a lugar algum”, caminhos cíclicos que podem exaltar um outro jeito de pensar.
Junqueira não se considera fotógrafa. Seu trabalho como artista se assemelha ao de uma cenógrafa ou diretora de arte. Ela e sua equipe chegam às
locações de madrugada, esperam o cenário se esvaziar, aguardam a luz ideal e compõem a imagem incorporando também aquilo que é dado. Mesmo na fotografia encenada não é possível escolher tudo, palavra que aparece também no título “como referência ao extremismo da criança, que, inocente, prevê que pode”, diz a artista. Junqueira conhece os limites, mas acredita também que sonhar é uma forma de realizar. Ela cita a frase atribuída a Walt Disney: “If you can dream it, you can do it”, em tradução livre, “se você pode sonhar, você pode realizar”.
De certa forma, sua prática depende também de uma sucessão de momentos decisivos. Cada uma das bolhas de sabão foi clicada num instante perfeito e preciso: vários momentos reais constituem essa imagem inventada.
O nosso pacto com o faz-de-conta parece ter hora para começar e para acabar. O livro chega ao fim, a cortina do teatro fecha, o carrossel desacelera até parar. Mas há algo que não obedece esse compasso: quando a brincadeira termina, o encantamento não desaparece. Como sugere a artista, “o mágico não é um intervalo que se abre e se fecha, mas uma forma de olhar, sempre à espreita de quem se dispuser a enxergar”.
Gisela Gueiros
Curadora
© 2026 por Flávia Junqueira.